por Josiane Orvatich

A ambivalência é a principal personagem do novo filme de Clint Eastwood, “Jurado número dois” (Max). Um dos meus cineastas favoritos por tocar com profundidade no tema dos dilemas éticos, com a delicadeza humanista própria de sua narratividade, costurando pontos da trama que implicam em tomadas de decisão nada simples.
Decisão é uma palavra difícil, aparenta uma resolução, mas carrega o peso de tudo o que fica fora dela, evoca a imagem de uma rede de pesca, esburacada em busca de um peixe que se fixe e possa ser preso, deslocado da sua base natural. A decisão é como um peixe fora d’água, uma construção artificial, talvez civilizatória em certa medida naquilo que a cultura rompe com a natureza. A grandeza ética da decisão é que se possa romper com um valor sem ferir demasiado o que fica fora dele. Talvez essa imagem aponte para a nossa humanidade no seu núcleo mais contraditório.
No filme, sobretudo dois personagens, o jurado número dois e a promotora de justiça, estão hesitantes quanto às consequências de suas atitudes. Freud, no texto “A negação”, irá considerar que a capacidade de julgamento é um dos atributos que definem o que é ou não a realidade, ou seja, a depender do que pensamos a realidade se torna uma ou outra – base da ideia de ‘realidade psíquica’.
Quando se trata de um caso de assassinato, como depender da subjetividade individual para determinar o que é a verdade e a justiça? Essa é a força das narrativas de Clint Eastwood. A mais dura das perguntas é convocada: qual foi a realidade da cena do crime e quem será condenado? Quem responde pela ambivalência implicada nas decisões humanas atravessadas pelo destino implacável? Desde Édipo-Rei e seu não-saber sobre a verdade de sua história a questão ética ressoa na culpa que pousa nos ombros de cada um de nós.
As decisões são como perdas. Não é possível seguir duas estradas ao mesmo tempo e a escolha pode ter muitos nomes, culpa, desejo, justiça ou destino, a depender de como poderemos sustentar o próximo passo a ser dado.
JOSIANE ORVATICH é psicanalista, escritora, graduada em Psicologia e Filosofia. Diretora de Publicação da Editora Sinthoma, Coordenadora de Pós-graduação do Instituto ESPE, Doutoranda em Filosofia da Psicanálise (PUCPR). Organizadora e autora do livro “Quando Freud fala de Arte”.
