por Marcelo Veras

Há um preconceito contra as princesas. A mulher emancipada e dona de seu próprio corpo e destino é avessa a ideia de que possa ser considerada uma princesa.
Não que até hoje muitas mulheres foram educadas para ser princesas. Ser boa, bonita, ter sofrido nas garras da madrasta, e finalmente encontrar seu príncipe, que fará dela uma mulher realizada – melhor dizendo – uma esposa e mãe realizadas. Esse modelo de princesa ainda é bastante atual na clínica, famílias que tudo que almejam para suas filhas é um bom casamento com um homem lindo e com uma boa conta bancária, melhor ainda se for herdeiro pois aí consegue ser rico ainda jovem.
Daí que curiosamente me parece que em alguns casos as verdadeiras megeras são as mães, aquelas que buscam desde muito cedo colocar suas filhas no modo princesa. São elas muitas vezes, e não as madrastas, que criticam se a filha está gorda, se ela não é gentil, se ela não sabe se vestir, se faz escolhas de sapos ao invés de príncipes, tudo isso aumentando ainda mais o fosso entre as duas.
Nesse caso a princesa é tomada pelos ideais dos próprios pais naquilo que eles querem representar para o Outro da sociedade. A clínica da decepção diante do olhar materno é cotidiana nos consultórios. Mulheres que na vida adulta ainda estão sempre com o sentimento de não ter sido o que as mães desejavam.
Mas há um outro tipo de princesa, e para quem das novas gerações ainda não viu, eu sugiro assistir Miss Sunshine. A trama se passa nos bastidores de uma desses horrorosos concursos de beleza infantil americanos, em que as meninas são transformadas em mulheres sexualizadas, e exploradas pela pelo olhar masculino pedófilo, muito mal disfarçado.
A menina de Miss Sunshine, é gordinha, e todos os jurados acham um acinte a pretensão de se candidatar. E na hora do desfile, diante da perplexidade da audiência diante da candidata tão fora da curva, toda a família sobe no palco e desfila com ela.
Nenhuma menina precisa ser uma princesa para o outro, mas toda menina tem que ser a princesinha dos pais, são estas que no futuro serão as mulheres confiantes.
MARCELO VERAS é psicanalista e doutor em Psicologia pela UFRJ
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