por Roger Flores Ceccon

Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho, é um filme impressionantemente bonito. Os diálogos, marcados por um encadeamento poético inesgotável, são primorosos; a fotografia, com planos abertos e fechados, preza pela protuberância dos corpos; a atuação do elenco é visceral; o enredo é encadeado por movimentos rápidos e silêncios conceituais; a produção é ambientada em um tempo passado, interiorano, ao sul; e a trilha sonora de Marco Antônio Gonçalves impõe o drama da narrativa que se desdobra em pranto. Tudo, basicamente tudo é bonito em Lavoura Arcaica.
O filme, uma adaptação do livro homônimo de Raduan Nassar, conta a história de André, filho do meio que se vê apaixonado pela própria irmã, Ana, de quem nutre um desejo incestuoso que lhe corrói em dor. Doentio e sufocado pelas rígidas regras de uma família atravessada pela ternura da mãe e o autoritarismo do pai, o filho pródigo abandona o lar e deixa um vazio no seio familiar coberto de tristeza. Entretanto, quando retorna, acaba por arruinar a família por não conseguir evitar que venham à tona os motivos de seu desgarre. O ápice do filme, enfim, é marcado pela cena em que Ana dança sensual e desesperadamente no que deveria ser uma confraternização libanesa e acaba em seu assassinato, culminado pela lâmina afiada da foice empunhada pelo pai, tomado pelo desgosto. É o estilhaço mais cruel de uma família marcada pelo veneno do patriarcado.
O patriarcado, na sociedade brasileira, se estrutura a partir de uma ordem de gênero e constitui-se como um sistema de relações hierárquicas sociais, políticas e econômicas em que os homens exercem poder e controle sobre as mulheres. É um sistema social masculino de dominação e o modo como os homens asseguram, para si e para seus dependentes, os privilégios e os meios necessários à produção da vida1. No filme, o feminicídio de Ana é o resultado da sensação de perda do controle da filha por parte do pai e do irmão mais velho, cuja dança e sedução feminina constituem-se como afronta ao patriarca, que se torna autorizado a matar. Ana, tomada pelo desejo como uma possessão, subverte as regras do jogo: ao dançar sensualmente, sai do seu lugar de mulher submissa e ordeira, e paga com a vida o arrojo de se tornar livre.
O assassinato de mulheres é um fenômeno frequente no regime patriarcal, no qual elas estão submetidas ao controle masculino, principalmente por maridos, familiares ou até mesmo desconhecidos. As causas destes crimes não se devem a condições patológicas dos agressores, mas ao desejo de posse das mulheres, em muitas situações culpabilizadas por não cumprirem os papeis de gênero designados pela cultura2,3, assim como Ana, que ousou dançar e foi morta em público, sobre o olhar dos demais membros do grupo familiar, cujo assassinato tem efeito pedagógico e serve como mensagem às demais mulheres.
Pertencente ao estrato simbólico, o patriarcado faz parte da estrutura que distribui valores entre homens e mulheres. Em Lavoura Arcaica, por exemplo, a mãe, sentada à esquerda do pai na mesa do jantar junto com os três filhos mais novos, representa os desajustados. A posição do patriarca à cabeceira da mesa, portanto, se dá no campo simbólico, que se transpõe em posição de mandatário no curso das relações sociais. Por estas razões, o patriarcado é ao mesmo tempo norma e projeto de auto-reprodução de relações desiguais de poder e de práticas sutis e escrachadas de opressão4.
No filme, o pai, por ser homem, é referenciado como o líder maior, o senhor da casa, aquele que dá a primeira e a última palavra. Na obra, o pai, Iohána, interpretado por Raul Cortez, é o patriarca, e demostra, sempre, sua virilidade e seu poder sobre os demais membros da família. Os traços de uma família patriarcal se baseiam na crença da existência de laços sanguíneos através de antepassados comuns, imaginários ou reais. A transmissão hereditária da posição de chefe ou senhor é passado ao primogênito desde os tempos antigos, e na obra não é diferente. A forma como era ocupada a mesa pela família revela o pai como figura de respeito e obediência.
Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições, ou na hora dos sermões: o pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinha primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika, e Huda; à sua esquerda, vinha a mãe, em seguida eu, Ana, e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes; já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anômala, uma protuberância mórbida, um enxerto junto ao tronco talvez funesto, pela carga de afeto (NASSAR, 2002).
No plano ideológico do patriarcado, a dominação masculina opera em níveis de difícil desarticulação, em que homens e mulheres estão aprisionados em elementos simbólicos. No filme, não são apenas as mulheres impactadas pelas nocivas práticas patriarcais. Os homens também o são, haja vista o próprio André, adoecido pela loucura, pelo cancro e pela epilepsia, cujo determinante é a violência do pai; o filho mais velho, obcecado pela restruturação da família; e Lula, o irmão adolescente que, na sua impulsividade, já no final do filme, expõe sua insatisfação e desejo de libertação daquela vida rural, opressora e arcaica, como no seu diálogo com André: “Não aguento mais essa prisão, não aguento mais os sermões do pai, nem todo o trabalho que me dão, e nem a vigilância do Pedro em cima do que faço, quero ser dono dos meus próprios passos, André”. Portanto, o patriarcado, embora seja um sistema de dominação e de privilégio masculino, também direciona seus tentáculos aos homens cuja masculinidade se insere afastada do padrão tradicional esperado.
Ao longo do filme, André é tomado pelo desejo à irmã, numa compulsão doentia, carnal, sexual, cuja satisfação é acalentada pela masturbação, como na primeira cena do filme, ou pela frequente ida a prostíbulos assim que foge da casa dos pais. No patriarcado, as mulheres são objetos de satisfação sexual masculina, reprodutoras de herdeiros, de força de trabalho e de novas reprodutoras. A sujeição feminina envolve a prestação de serviços sexuais aos homens, além de um conjunto de práticas de dominação e exploração. Hartmann1 afirma que as mulheres são sistematicamente dominadas, exploradas e oprimidas. Dessa forma, a reprodução do patriarcado continua ao longo do tempo, mesmo com os avanços feministas dos últimos anos. Por exemplo, se na Roma antiga o patriarca tinha direito de vida e morte sobre a mulher, hoje o feminicídio é crime capitulado no Código Penal, e apesar da existência da Lei Maria da Penha (11.340/2006) e da Lei do Feminicídio (13.104/15), muitos assassinos gozam de ampla impunidade5,6.
Embora ambientado em um cenário que remete a um passado colonial, o filme Lavoura Arcaica nunca foi tão atual. Só no ano de 2019, 3.737 mulheres foram assassinadas no Brasil, cuja taxa foi de 3,5 vítimas para cada 100 mil mulheres. Roraima (12,5/100 mil) e Acre (7,5/100 mil) foram os estados com as maiores cifras. Destas, 66% eram negras, o que representa um patriarcado racista, em que as principiais vítimas são as mulheres negras e pobres.
A foice do pai, cuja lâmina lambe a carne e abrevia a vida de Ana, simboliza o poder extremo dos homens sobre a vida das mulheres na sociedade atual, em que muitas já nascem marcadas para morrer. Quinto país que mais assassina mulheres no mundo, o Brasil Arcaico é palco de um massacre feminino, enraizado por desigualdades que o estruturam há séculos. É premente uma sociedade pós-patriarcal, pois, segundo Nassar, erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente. É preciso que a lavoura, ao invés de arcaica, transforme-se em terra fértil na garantia de igualdade de gênero, em que Ana´s dancem espontânea e seguramente livres de foices masculinas que ceifam vidas a dura sorte.
ROGER FLORES CECCON é professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, da Residência Multiprofissional em Saúde da Família e do curso de Medicina do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Pós-Doutor em Saúde Coletiva (UFRGS).
Referências
1. Hartmann, H. Capitalism, Patriarchy, and Job Segregation by Sex. Spring, London, v. 1, n. 3, p. 137-169, 1979.
2. Monarrez Fragoso J. Feminicidio sexual serial em Ciudad Juarez: 1993-2001. Debate Feminista 2002; 25(13):1-16.
3. Biglia B, San Martin C. Estado de wonderbra: entretejiendo narraciones feministas sobre las violencias de género. Barcelona: Vírus Editorial; 2007.
4. Segato, R. L. Las estructuras elementales de la violencia. Ensayos sobre género entre la antropología, el psicoanálisis y los derechos humanos. 2. ed. Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes/Prometeo, 2003. p. 131-148.
5. Saffioti, H. Gênero, patriarcado e violência. 1. ed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.
6. Meneghel, S. N. Repercussões da Lei Maria da Penha no enfrentamento da violência de gênero. Ciência e saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 18. n. 3, p. 691-700, jun. 2013.
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