por Larissa Zucco

A figura feminina foi vista ao longo dos séculos como imagem de cuidado
e de objetificação, cujo papel social exercido sempre foi o de ‘servir’ a algo ou
alguém. As relações matrimoniais foram, em muitos casos, grandes acordos
comerciais que visavam estabelecer novas fronteiras e aumento de riquezas
entre famílias, construindo grandes impérios.
A primeira discussão pertinente ao assunto é a de estabelecer uma base
histórica que possibilite vislumbrar o cenário como o mais próximo à realidade.
Desse modo, traz-se para a discussão a escravidão. Durante muito tempo,
pessoas negras foram escravizadas e vistas como mão de obra barata, cuja
dignidade e existência eram precárias e desumanas.
A partir do momento em que se estabelece a escravidão como base
histórica para discutir o fenômeno da sexualidade feminina, diz-se que: os
casamentos arranjados como forma de acordos comerciais se davam,
majoritariamente, entre pessoas brancas, tidas como ‘de boa família’ e com
poder aquisitivo notável.
Há feminismos que ignoram a diferença racial presente entre mulheres
negras e mulheres brancas. Fala-se tanto no direito ao trabalho, direito
conquistado pela voz das mulheres feministas que protestaram por suas
vontades em praças públicas, mas pouco se fala nas criadas, mulheres negras
e escravizadas, que desde sempre exerceram atividades de trabalho como
cuidados com o lar, com os filhos das patroas, com a alimentação e etc.
Parece existir uma lacuna histórica que ignora a realidade das mulheres
negras, que a séculos perpassam por todos os crimes e tratamentos desiguais
perante uma sociedade machista, racista e sexista. Não são poucos os casos de
mulheres negras atacadas, violentadas, estupradas, pela condição de gênero e
também de raça.
Fala-se na escravidão, pois, muitos comportamentos e
pensamentos/valores sociais são advindos da reprodução desumana desse
período histórico, principalmente os de objetificação da pessoa negra. Os
homens foram vistos como semblante de força e resistência, trabalho forte e mão
de obra barata, enquanto que as mulheres foram vistas como criadas do lar, dos
senhores portadores do poder aquisitivo, cujas funções estavam associadas a
criar e cuidar dos filhos das senhoras, alimentar, cultivar e nutrir a família branca,
zelar e se responsabilizar pelos afazeres do lar e de higiene, e, nas entrelinhas
dessas mulheres, estarem à disposição dos desejos e vontades sexuais do
patrão.
Mulheres negras possuem componentes genéticos e biológicos que as
caracterizam como mulheres com boca grande, quadril largo, curvas e corpos
volumosos, com uma carga histórica de hipersexualização de seu corpo. No
imaginário coletivo há um desejo e uma objetificação voltada à sexualidade, quer
seja para a mulher negra, quer seja para o homem negro.
Há um histórico de submissão da figura feminina para com relação a figura
masculina, sempre em pé de desigualdade de gênero. De um lado, o todo
poderoso, portador do logos e do conhecimento, do outro lado, a sempre
feminina, doce e amável esposa dedicada e zeladora de seu lar e de sua família.
Mas, espera, essa é, novamente, uma narrativa branca.
Pensar a narrativa sobre os olhos ou telas daquele que vê fala diretamente
sobre as projeções inconscientes, sobre as aprendizagens constituídas ao longo
da vida. A consciência não é um fenômeno de aquisição financeira, mas é fácil
observar o padrão daquele que compra.
A sexualidade feminina deve ser um fator de proteção para a mulher. Ela
deve experimentar a sensação de ser dona e portadora dos prazeres e ódios de
ser quem se é. Ao passo que o pensamento aqui se evolui, questiona-se: branca,
negra, parda e indígena têm a mesma capacidade de afirmar sua sexualidade?
E, se a resposta for hipoteticamente sim, de que forma ela expressará sua
sexualidade de forma livre, consciente e protegida?
Não é a roupa, não é o salto, não é a bebida, não é a droga. Se o desejo
dos olhos daquele que vê não for o de respeito, todos serão (no final das contas)
vítimas.
LARISSA ZUCCO é psicóloga, pós graduanda em Saúde e Sexualidade da Família e em Neuropsicologia
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