ARTIGOS

Micropênis

por Marcia Tiburi

Há alguns dias veio à tona o ataque de um grupo de estudantes de medicina da UNISA – e de outras universidades – que invadiram uma quadra de esportes correndo nus e simulando masturbação durante um jogo de vôlei feminino. Os homens corriam de calças arriadas numa cena patética em um desfile de exibicionismo coletivo.

O exibicionismo é classificado na psiquiatria como uma “parafilia”, em português vernacular, uma “tara”, e tem como fundamento chocar o olhar do outro. Aquele que se exibe sexualmente se realiza ao se mostrar, partindo do pressuposto de que tem algo importante para mostrar. No caso, exibicionistas transformam órgãos genitais em armas. A homonímia entre órgãos genitais masculinos e armas é uma figura clássica da violência da cultura patriarcal. Um político chamado Edu Bananinha ficou famoso por ter sido flagrado no tamanho de seu p&nis enquanto cultuava armas.

Nesse contexto de mensurações patriarcais, típico de uma “lógica da medida” atuando no patriarcado, uma espécie de contradição veio à tona e virou piada. Se trata da imagem de um desses homens correndo nu tendo entre as pernas o que é definido na literatura como “micropênis”. O que levaria um homem com micropênis a exibir-se sexualmente no contexto patriarcal da supervalorização dos órgãos sexuais masculinos pelo seu tamanho?

Ora, o exibicionismo é uma forma de prepotência sexual. Aquele que se expõe genitalmente sem ter material que corresponda ao poder em jogo, corresponde a quem exibe riquezas inexistentes ou opiniões carentes de forma e conteúdo como no culto da ignorância que leva ao fascismo.

A exposição do micropênis revela a força da prepotência masculina presente na cultura do estupro. Sintoma do patriarcado – sustentado no ódio às mulheres -, a cultura do estupro transforma órgãos genitais masculinos em armas e mulheres em alvos. Nesse caso, o grupo de homens correndo nus é um exército de prepotentes, porque, impotentes.

O micropênis é a imagem metonímica da verdade pela qual sabemos que todo estuprador, abusador e assediador precisa praticar violência para compensar seu próprio desfavorecimento no cenário do delírio patriarcal e tóxico.

MARCIA TIBURI é filósofa, escritora e professora de filosofia (Paris VIII)

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