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O rio atravessado: resenha sobre “Tudo é Rio”, de Carla Madeira

Lucas Gabriel Soares

Desde a antiguidade, histórias de amor estiveram presentes na vida das pessoas. No caso do livro de estreia de Carla Madeira, Tudo é rio[1], o relacionamento entre Dalva e Venâncio não recai em estereótipos, pelo contrário, a construção de suas histórias é atravessada pela história de Lucy, personagem que exerce a tríade do relacionamento desvelando suas contradições e paixões.

A professora Ruth Silviano Brandão[2] explica que as personagens femininas de uma obra muitas vezes acabam por reproduzir o lugar-comum que circula como verdade feminina na sociedade. No caso de Lucy, a potência da co-protagonista resulta na sua capacidade de desestabilização dos padrões reiterados desta dimensão patriarcal que ainda emoldura nossas composições sociais. Lucy é puta – adjetivo escolhido pela própria autora para caracterizar a personagem – mas não de uma maneira pejorativa, ela é puta porque exige pagamento em suas relações sexuais. No entanto, o que está em pauta é, unicamente, o prazer que extrai em submeter os homens ao seu domínio, e por isso, o valor opera apenas no âmbito simbólico, porque o que está confabulado é a da troca impossível, como diria Jean Baudrillard[3], o preço por algo singular, algo cuja posse como tal não tem sentido e só se materializa na dinâmica dos valores, no efeito da troca.

Muitas organizações feministas compreendem a prostituição como uma parte estruturante do patriarcado. No outro pólo, delibera Adriana Piscitelli[4], há posições que consideram a vinculação das mulheres como o sexo fonte do seu poder. No caso de Lucy, a prostituta seria um símbolo de autonomia sexual das mulheres e, como tal, uma ameaça potencial ao controle patriarcal. Perspectiva essa, que se aproxima da visão de Monique Prada, a idealizadora do Putafeminismo, e seu olhar feminista sobre a prostituição. A autora diz que a existência de garotas de programa iniciadas de forma consciente e que estão realizadas com o exercício da atividade contrapõem a visão de que a prostituição é, essencialmente, uma profissão de violência e coerção, e talvez, por isso, o grande perigo que Lucy representa para a sociedade seja exatamente este: acabar por convencer as outras mulheres de que o ‘lado de lá’ não é, afinal de contas, tão ruim ou perigoso assim[5].

Se de um lado o romance é chacoalhado com o aprofundamento da história de Lucy, no caso do casal protagonista, Dalva e Venâncio, a incerteza paira sobre o absurdo. A violência é parte constitutiva do pensamento masculinista. Segunda Rebecca Solnit[6], o primeiro ato de violência que o patriarcado exige dos homens não é a violência contra as mulheres, mas contra os próprios homens, ao exigirem que pratiquem atos de automutilação psíquica, no intuito de também matarem suas partes emocionais. No contraponto, a resignação de Dalva não é uma mostra de submissão, mas de esperança. A esperança, nesse caso, é o fluxo do rio que demonstra os efeitos cáusticos do patriarcado na mente dos homens e na pele das mulheres e crianças. E se há possibilidade de mudança, há esperança no futuro, um espaço e tempo onde seu filho circulará em sua segunda vida.

LUCAS GABRIEL SOARES é Mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atualmente Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina


[1] MADEIRA, Carla. Tudo é Rio. São Paulo: Record, 2021.

[2] BRANDÃO, Ruth Silviano. Mulher ao pé da letra: a personagem feminina na literatura. Belo Horizonte: Editora UFGM, 2006, p. 56.

[3] BAUDRILLARD, Jean. Troca Impossível. São Paulo: Nova Fronteira, 1999, p. 69.

[4] PISCITELLI, Adriana. Apresentação: gênero no mercado do sexo. Cadernos Pagu [online]. 2005, n. 25 p. 7-23. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0104-83332005000200001&gt;.  Acessado em 18 Julho 2022.

[5] PRADA, Monique. Putafeminista. São Paulo: Veneta, 2018, p. 69.

[6] SOLNIT, Rebecca. A mãe de todas as Perguntas: reflexões sobre os novos feminismos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p. 39.

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