ARTIGOS

Como funciona o editorial do Jornal Nacional contra o trabalhador

por Luiz Fernando Ozawa

Não é de hoje que há análises críticas sobre os editoriais das concessionárias de televisão de canais “abertos” (este pequeno texto não tem pretensão de ser inovador nem o último sobre o tema, pois). Muitas obras foram escritas a respeito, e já sabemos que neste meio de comercialização da informação em privilegiado espaço, não há “inocentes”.

Também não é de hoje que particularmente assisto ao maior (no sentido de mais rico e assistido) canal aberto do país, justamente para entender qual a pauta do chamado “mainstream”, ou pra saber o que “eles” querem que “a gente” pense a respeito das coisas. Por coisas, as pautas, contadas em forma de reportagens. E daí construir a crítica e se preparar e defender-se sobre “o que vem por aí”.

E no “contra fatos não há argumentos” tem-se a maior falácia argumentativa sobre fatos. O ofício da advocacia não é outra coisa senão argumentar sobre fatos, a jurisdição é o serviço público de tal arte. Logo, por vocação de ofício, somos interpretadores de como se argumenta sobre um fato, ou de como se conta uma história por múltiplos ângulos, destacando ou omitindo nuances a depender da mensagem que se quer passar: bingo!

Costumo repetir que a realidade é como um horizonte, que é o mesmo a depender de quantas janelas que se consegue abrir para enxergá-lo. Nesta lógica, o Jornal Nacional ainda (até quando?) funciona como uma espécie de tradutor do que se enxerga, ou mitologicamente uma espécie de “Hermes” (Deus grego que traduzia a linguagem dos outros deuses aos comuns), que argumenta sobre os fatos sob a falácia da isenção, para os trabalhadores que ao final de sua longa jornada ainda se alimentam de tal tipo de (des)informação.

Sim, há alternativas de (des)informação nas redes sociais, mas a lógica não é tão distante. Mesmo assim, essa ainda é uma realidade distante para grande parte dos trabalhadores dos rincões do país, onde a oferta de televisão é muito maior que a oferta de internet, rápida e acessível por “smartphones”.

Na Edição de 22/11/2021, uma segunda-feira, o Jornal Nacional pautou três reportagens em sequência, cujo sistema editorial deixa claros rastros de o que se quer dizer, por entrelinhas de “reportagens isentas” (sic).

 Vamos à pauta ou “esquete”:

CENA 01: “Brasil tem a quarta maior taxa de desemprego entre as principais economias do mundo, diz levantamento” (2m58s):

Reportagem sobre o desemprego. Fila de trabalhadores com currículo embaixo do braço e falas deprimentes, falas de “esperança” de emprego. Disputa de vagas assalariadas por multidão de gente. Índices alarmantes de gente sem CTPS assinada. Ranking negativo, mais que o dobro da média global, desemprego estrutural. “Especialista” falando em alta carga tributária que conclui: “se não há emprego não há consumo”. E o trabalhador: “bola pra frente e tentar de novo”.

CENA 02: “Motoristas de ônibus entram em greve em Belo Horizonte” (00m21s)

Reportagem criticando greve de trabalhadores motoristas de ônibus, com piquete de pneus furados contra os baixos salários e o acúmulo de funções (dirigir e cobrar passagens) em concessionária de transporte público. Imagem de passageiros reclamando de “superlotação”, “prejudicando” usuários chateados com a falta de oferta. Nenhum trabalhador grevista entrevistado.

CENA 03: “Produção e venda de motos crescem na pandemia” (02m35s)

Reportagem celebrando aquecimento na venda de motocicletas no país, com números repletos de entusiasmo e imagens idem. A chamada diz que um dos motivos é a alta dos combustíveis e o industrial fala em “deliveries”. Os mais baratos são os mais vendidos. Um dos entrevistados (consumidor) dizendo que vai complementar a renda porque com salário mínimo “não tá ajudando muita coisa não né?”.

Bem, não é preciso ser muito letrado para se interpretar os argumentos sobre os fatos, e “ligar os pontos” da pauta como um sistema de propaganda ideológica de uma visão de mundo muito particular, cuja mensagem sai de uma posição privilegiadíssima (interlocutores) para uma multidão nada privilegiada (intérpretes), na tentativa quase sempre vitoriosa de convencimento dos “desgraçados” (sem graça, sorte) sobre sua própria desgraça.

Considerações: (A) Admite o desemprego como premissa (tragédia) e mostra multidão de gente aceitando qualquer coisa pra comer; (B) Critica a greve e outros direitos e pautas contra a precarização do emprego de trabalhadores na ativa, jogando trabalhador contra trabalhador e pior, deixando clara a mensagem de que há uma multidão que aceitaria menos direitos para pegar a vaga do insatisfeito-arruaceiro; (C) Celebra o lucro da indústria, e mostra a “alternativa” do “‘empreendedorismo” (sic) do consumidor-trabalhador em se precarizar (ainda mais) no trabalho de rua colocando em risco sua saúde (SUS atende uma Guerra Civil de traumas no trânsito, e os motociclistas são suas piores vítimas).

E é claro o Sonho do Capital(ismo) brasileiro: pseudo “empreendedores” (ex-empregados antes minimamente protegidos pela Lei) consumindo da indústria que consome o trabalhador sub-empregado (quanto menos empregados com CTPS melhor, pois), sem direitos. A propaganda política-ideológica é forte, no mesmo meio onde a propaganda publicitária-mercadológica se faz, pois.

Assim é a receita de como produzir propaganda ideológica travestida de informação, cujo editorial está totalmente comprometido com a precarização do trabalho, e da saúde de quem produz de um lado, e dos lucros industriais de quem anuncia em seus espaços do outro.

E sigue la milonga, ché!

LUIZ FERNANDO OZAWA é Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais (UMSA/UFMS), Doutor em Ciências Jurídicas (UCA), Mestre em Gestão de Políticas Públicas, advogado e professor universitário

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