ARTIGOS

Vacina contra a ignorância

por José Ernani Almeida

Charge de Latuff

A vitória  de Bolsonaro  foi  recebida com justificada  aversão pela inteligência brasileira. Parecia impossível que  uma  junção do que há de mais deletério em nosso país  se reunisse  para levar alguém como ele  ao poder.


Mas, como  escreveu o jornalista Marcos Coimbra, foi o que  aconteceu aqui: juntou-se o pior  da população com o pior  do empresariado, da política e da religião, em torno de uma figura  caricata.


Nazistas, supremacistas, terraplanistas, fanáticos, pervertidos, militaristas, adoradores de armas  saíram  do armário, levando  de  roldão  alguns  incautos.


O  resultado  é  o que temos  assistido  nestes  últimos meses:  o que  era indigno  tornou-se  repugnante.  As  atitudes  de um político medíocre  começaram  junto  com o governo, quando o presidente, recém eleito, comentou  que um de seus  filhos  poderia  ser o embaixador  em Washington. À  partir de   então os vexames  multiplicaram-se.


A última estultice de Bolsonaro foi o cancelamento de forma impulsiva  da  compra  da vacina  chinesa  para a covid-19, que ecoa  a irracionalidade de quem ocupa  a presidência.


O argumento  foi de que a  China é uma ditadura. Esquece Bolsonaro que nos  primeiros nove meses  do ano, o Brasil vendeu  aos chineses  53,4 bilhões de  dólares  em produtos  nacionais, obtendo um ganho  de  29, 1 bilhões  no comércio com os chineses.  Aí não é ditadura?


A decisão, na verdade, evidencia  o desprezo  à  vida dos brasileiros.  A preocupação de Bolsonaro resume-se na reeleição já que a  decisão foi tomada diante da possibilidade  de beneficiar  João Dória. Assim, irresponsavelmente, Bolsonaro queimou a esperança  de  compra de uma  das  vacinas mais  promissoras nos testes.

Desconfianças  ideológicas, assentadas  apenas  sobre  a nacionalidade  da vacina, são inoportunas,  bem  como  as  disputas políticas internas.  O que  deve prevalecer  é a  luz  da  ciência.


O  governo  enfatiza também que a imunização  contra  a covid-19 não  será obrigatória.  Aí  surge  a questão  do princípio do dano, defendido por   John Stuart Mill.  Isto é,  se  eu não me  vacino estarei prejudicando  os  demais.


Em  1904  ocorreu  entre nós a  Revolta  da Vacina, durante o governo de Rodrigues  Alves. A população, diante  da  obrigatoriedade  da vacinação contra a  varíola,  provocou uma grande rebelião no Rio de Janeiro que acabou  em grande  violência.  No final  a  obrigatoriedade  prevaleceu.  Vamos  ter a repetição do  que houve no século  passado, agora  como farsa? 


Diante  dos vexames, estultices, da irracionalidade de um presidente  que  se mostra um verdadeiro lunático, creio que precisamos urgentemente  de uma vacina  contra a ignorância.

JOSÉ ERNANI ALMEIDA é professor de história do Brasil e especialista em história pela UPF/RS

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1 resposta »

  1. Aberração, essa é a melhor definição pro ocupante do Palácio do Planalto!
    Sabe aquele bobão tentando fazer piada que ninguém acha graça??
    É Esse maluco, doido varrido, que conseguiu enganar milhões de pessoas, menos Eu!!

    Curtir

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